quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Glaurema 10

outro amanhecer
que as lembranças sempre venham
sempre de você

Glaurema 9

noite amanhecer
que a lembrança sempre seja
ouro sem o ser

Glaurema 8

noite, luz acesa
o tempo sem natureza
até que amanheça

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Glaurema 7

noite de verão
vaga-lumes num jardim
no setentrião

Glaurema 6

sobre a letra "i"
poesia e infinito
é simples assim

Glaurema 5

mulher de sombrinha
contra as lágrimas no rosto
a chuva é tímida

Glaurema 4

belo horizonte
chove chove chove chove
aonde o céu de ontem?

Glaurema 3

natureza-morta
vão-se todos menos um
pintor de paisagens

Glaurema 2

homem no jardim
o vento atravessa o caule
seco de silêncio

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Jasmim

Posso atravessar o deserto, se dentro de mim ainda houver
uma flor
pequena delicada sem espinho,
a flor que consigo,
essa flor que dura,
mesmo sob o sol,
mesmo contra o sol,
furiosa,
um fogo de ramos perfumados, crescendo para dentro
da casa,
do quarto,
do peito,
através das janelas quebradas,
contra o vidro,
essa flor que fende as rochas,
e no corpo me enraíza,
e com perfume me atravessa,
mesmo que dentro de mim rasgue-me o vento, a areia,
e caiam as folhas,
e ninguém ouça o ruído imperceptível
da dor que derramam os ramos,
e venha a noite ou o pranto ou o dia ou o vento,
ou uma fenda aberta na pedra,
na carne,
no branco coração,
e cubra de areia o coração soterrado,
mesmo sem um qualquer fio de água no peito,
contra as pedras,
para me lavar da áspera solidão
do que está gravado,
posso atravessar o deserto, se dentro de mim ainda houver
o branco coração
de uma flor intacta.

presente

o amor devagar sorri
pela manhã e os livros
fazem poeira de sol entre os cílios.

Glaurema

retrato em família
a cortina devora o quadro
cinza dos vivos

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009


era uma vez, cansada, era uma vez eu carregando livros, era uma vez eu disfarçando raivas, era uma vez eu que queria tudo e continuava, era uma vez o amor caído, o tropeço, o rastro, a morte, era uma vez eram várias, lembranças e a boca seca e o coração parando, era uma vez, eram, músicas de dormir, de por no colo, de deite-se aqui junto ao meu peito, de eu para sempre junto a ti, eram gestos, quedas, voos, eram vezes inúmeras e promessas, e as juras de para sempre e as promessas de nunca mais, e cada um deles sempre o primeiro, a cada vez é sempre, sempre o primeiro, e foram assim vezes tantas até o cansaço, e eu, era uma vez eu, hoje, cansada, perdida, exausta, era uma vez eu

de repente sentindo de novo um tremor no peito, a pessoa me sorri, escondo os olhos: tenho medo e vergonha de gostar.


domingo, 13 de dezembro de 2009

Noturno

deixa-me a tristeza
ofuscar-me dentro da noite
sem signo ou significado
líquido desaguado
pela brecha do esgoto

Noturno

No fundo eu tento acabar com essa tristeza
acariciando os cacos da garrafa de pinga
quebrada dentro da bolsa

beijando voluptuosamente o ar que ainda resta
dentro da noite

sumindo dentro
subindo fora

liquefeito nos poros da noite
percolado nos vãos da terra firme
erosivo e turbrilhante morrendo a carne
feita água
sob o véu esperado da noite

Noturno

o ardil da noite
é essa pretensa
indefinição das
formas
isca perfeita
para as presas
néscias
que avistam
o desejo
em qualquer
objeto adjeto
estratégia abjeta
dessa noite
que te caça sem fim

Noturno

no turno noturno
o trabalho é esse
de quem chora
séquito dos faltosos
e embebidos de
saudade
turba dos que
amam sem objeto
possível
horda que respira
o gosto afável
da auto-traição

eassis


Sua rubrica diz
o que ninguém mais
diz: eduardo assis martins
ser essencial-
mente esquecido de si.

O que me habita

(Para Laura)
"... e nem que passe o resto da vida olhando as festas do lado de fora do vidro, negando o corpo e a possibilidade do outro, eu não pretendo voltar a ser aquela menina pequena dentro da mulher rindo do mundo; a menina pequena procurando desesperadamente alguém que a amasse, a menina pequena gastando as tripas para conseguir agradar."
A menina toma a mulher pela mão e, risonha, mostra os joelhos ralados. Sentada no meio-fio da conversa, vai tirando do bolso a coleção de pedras. Há um pedaço de minério que ela gosta especialmente, e um quartzo transparente que se alimenta de arco-íris. A mulher tenta ir embora, não pode. É fundamental amar à menina que deixou de ser. A menina que, aos gritos, tem medo de dormir sozinha. Medo das pequenas mortes. Medo, de não voltar mais.

É a mulher quem diligentemente esquece baldes no jardim. Os baldes que a menina emborca embaixo das janelas nos dias de festas, quando faz noite e o quarto escuro da lua. Há grades para a menina se agarrar, enquanto observa a vida do lado de dentro. Dentro de tantos outros.

Um Poema com Bandoneón - Piazzolla & Borges

O poeta fez uma poesia que foi musicada, com bandoneón, pelo compositor Astor.
A menina que tinha medo do mar, chora com bandoneón e faz poesia, não sei porquê, me fez lembrar da obra dos dois argentinos.
Também pudera: a lição de voo nos faz voar até onde não imaginávamos ir.

Vejam em: http://www.youtube.com/watch?v=aGPOzYNs-Y4

Jorge Luis Borges - El tango

¿Dónde estarán?, pregunta la elegía
de quienes ya no son, como si hubiera
una región en que el Ayer pudiera
ser el Hoy, el Aún y el Todavía.

¿Dónde estará (repito) el malevaje
que fundó, en polvorientos callejones
de tierra o en perdidas poblaciones,
la secta del cuchillo y del coraje?

¿Dónde estarán aquellos que pasaron,
dejando a la epopeya un episodio,
una fábula al tiempo, y que sin odio,
lucro o pasión de amor se acuchillaron?

Los busco en su leyenda, en la postrera
brasa que, a modo de una vaga rosa,
guarda algo de esa chusma valerosa
de los Corrales y de Balvanera.

¿Qué oscuros callejones o qué yermo
del otro mundo habitará la dura
sombra de aquel que era una sombra oscura,
Muraña, ese cuchillo de Palermo?

¿Y ese Iberra fatal (de quien los santos
se apiaden) que en un puente de la vía,
mató a su hermano el Ñato, que debía
más muertes que él, y así igualó los tantos?

Una mitología de puñales
lentamente se anula en el olvido;
una canción de gesta se ha perdido
en sórdidas noticias policiales.

Hay otra brasa, otra candente rosa
de la ceniza que los guarda enteros;
ahí están los soberbios cuchilleros
y el peso de la daga silenciosa.

Aunque la daga hostil o esa otra daga,
el tiempo, los perdieron en el fango,
hoy, más allá del tiempo y de la aciaga
muerte, esos muertos viven en el tango.

En la música están, en el cordaje
de la terca guitarra trabajosa,
que trama en la milonga venturosa
la fiesta y la inocencia del coraje.

Gira en el hueco la amarilla rueda
de caballos y leones, y oigo el eco
de esos tangos de Arolas y de Greco
que yo he visto bailar en la vereda,

en un instante que hoy emerge aislado,
sin antes ni después, contra el olvido,
y que tiene el sabor de lo perdido,
de lo perdido y lo recuperado.

En los acordes hay antiguas cosas:
el otro patio y la entrevista parra.
(Detrás de las paredes recelosas
el Sur guarda un puñal y una guitarra.)

Esa ráfaga, el tango, esa diablura,
los atareados años desafía;
hecho de polvo y tiempo, el hombre dura
menos que la liviana melodía,

que sólo es tiempo. El tango crea un turbio
pasado irreal que de algún modo es cierto,
un recuerdo imposible de haber muerto
peleando, en una esquina del suburbio

Lição de voo

Da primeira vez em que vi o mar, chorei de medo. Foi meu avô quem me tirou o medo do mar. Me dava a mão e me levava cada vez mais perto da margem. Eu soltava a mão dele e corria de volta. Ele me pegava de novo com paciência. Um dia, vimos uma menina à beira-mar fazendo um castelo de areia. A coisa mais linda. “Me ensina?” Meu avô me ensinou a espremer areia molhada na palma das mãos e fazer uma torre. Nem reparei quando o mar chegou perto e molhou nossos pés.

Vieram-me tantos outros medos depois desse. Então, eu queria que alguém me levasse com a mão firme: olha, viver é assim e assim, espremendo a areia até ficar uma torre bonita. Para isso, eu leio poemas, grifo, repito antes de dormir, rego as plantas, choro ao som de bandoneon, vou trabalhar, aprendo a dançar flamenco, converso aqui com vocês. Para isso, escrevo textos que depois eu rasgo, vou para a aula, volto, olho o céu, olho mais, reparo no jeito de uma pessoa abaixar os olhos. Para isso, só para isso, eu invento a mão firme que me leva até bem perto

do mar.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Por dias vago pela cidade
para capturar a palavra mais linda
e entregar a meu amor

uma vez recebida
ela a solta
como pássaro em poemas




dagen zwerf ik door de stad
om het mooiste woord te vangen
en te brengen aan mijn lief

eenmaal ontvangen
laat ze het vrij
als vogels in gedichten

aconchego.



sobre estar perto.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Confissão:

Na boca, o que bate
os sinos dentro?
partindo-se.

o corpo estéril ou o caso do psicótico da semana passada, musicado

e foi um homem que eu nunca quis, um homem qualquer, desses que a gente tem o azar de esbarrar na vida que me disse: seu corpo secou. aliás, minto. ele não disse. ele gritou, gritou e quis que o ouvissem, o homem qualquer que eu não quis e que me causava asco e me dava medo, o homem qualquer tinha o mapa dos meus dias, das minhas frutas preferidas, das roupas que eu repetia, dos discos que eu gostava de ouvir. em uma semana o homem qualquer praticamente me sabia inteira e me fazia visitas diárias, e várias delas, e me assustava, e me roubava o tempo de pensar no meu medo, no meu nojo, na minha raiva. o tempo que eu gastava pensando nessas coisas. o tempo que eu ficava alerta como um cão ao atravessar a rua e caminhar até o ponto de ônibus. o tempo de pensar que eu tinha culpa, que eu não deveria ser tão fácil de conversar com os outros, que jamais deveria ter deixado minha pele grossa e minha casca para trás. não nunca confiar nas pessoas, nem desconfiando junto. acontece que eu sou uma pessoa crédula. eu acredito no outro. sou capaz de gostar à primeira vista, sem reservas, sou capaz de levar para casa alguém que quase morre na calçada suja. e antes era pior, inclusive. antes do deserto eu amava muito mais e sem medida, amava e era tudo junto, carne, sangue, cuidado, entrega. o deserto me matou um pouco, admito. e admito mais ainda que acho que morrer esse pedaço de mim foi das melhores coisas que já me aconteceram. se cada pedaço que eu perdi por amor fosse pedaço de verdade, de verdade do corpo, bem, de mim não teria sobrado nem um toco de braço. eu costumava falar disso com orgulho, hoje acho bastante cretino e contraproducente. não dá pra viver em pedaços, ou pelo menos eu não quero mais. por exemplo, este homem qualquer que me arrasou a sanidade mental na semana passada: eu não o quis, apenas isso. e este homem enlouqueceu de ódio, e agora este homem quer me matar, e eu não duvido que se um dia nos esbarrarmos novamente - por conta desses azares que acontecem na vida- ele realmente o faça. porque este homem é realmente louco. clinicamente louco. e eu estava tão atarefada na minha função de confiar no outro que não percebi nem de longe o perigo, que não percebi o descontrole e como esse homem qualquer era afoito, faminto de afeto, daquele afeto doente que na verdade é posse. eu quis ser gentil. eu queria fazê-lo rir porque ele é uma pessoa e eu gosto de fazer as pessoas rirem. preciso ser divertida. preciso ser doce. preciso ser prestativa. talvez isso seja pior do que a entrega sem reservas. bobagem, isso É a entrega sem reservas, num outro grau.

mas o pior é que o homem qualquer, o homem louco
está coberto de razão.

meu corpo secou. descobri que estou incapaz de me apaixonar por idéia ou pessoas, por planos, sonhos, desejos. me secaram o corpo a alma o peito. coração agora feito de palha, fechado, sem sumo nem sangue. não faço mais calor. não sinto nada. e nem quero. quero ficar aqui com o que me resta de mim, com o que não me levaram, com o que eu consegui guardar. pensei um pouco e tive assim, de repente, esse medo: e depois que a pessoa se gasta e se entrega e não cabem mais cicatrizes, o que é que acontece? ela fica morta, terminantemente morta? talvez. então não quero. sou muito nova pra acabar de morrer agora, e nem que passe o resto da vida olhando as festas do lado de fora do vidro, negando o corpo e a possibilidade do outro, eu não pretendo voltar a ser aquela menina pequena dentro da mulher rindo do mundo; a menina pequena procurando desesperadamente alguém que a amasse, a menina pequena gastando as tripas para conseguir agradar.


palavras chave: trauma, entrega, estéril, medo, amor

Confissão

Eu te quero
ter comigo
numa caixa
no bolso
pra beijar
em segredo
na igreja

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Sarau flamenco

Sarau na biblioteca do Saramago, com Luis Pastor e a (linda!) bailaora Maria Pagés (julho/2006).

:)

Ergo uma rosa

Ergo uma rosa, e tudo se ilumina
Como a lua não faz nem o sol pode:
Cobra de luz ardente e enroscada
Ou ventos de cabelos que sacode.


Ergo uma rosa, e grito a quantas aves
O céu pontua de ninhos e de cantos,
Bato no chão a ordem que decide
A união dos demos e dos santos.


Ergo uma rosa, um corpo e um destino
Contra o frio da noite que se atreve,
E da seiva da rosa e do meu sangue
Construo perenidade em vida breve.

Ergo uma rosa, e deixo, e abandono
Quanto me doi de mágoas e assombros.
Ergo uma rosa, sim, e ouço a vida
Neste cantar das aves nos meus ombros.

[José Saramago]

Abraço ausente

Para te enviar um abraço
esquecer a distância e fingir
que o espaço de ausência
se fez carne
flor
semente
que se fez árvore
para te enraizar em mim saudade.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Haicai decassílabo para o fim do dia (porque o poema é meu e eu chamo ele do jeito que eu quiser)

(ou: "Abaixo os puristas!")

Os pés
mergulho
pra esquecer
o chão

Espelho do espelho:

Enterro a semente
com meu dedo
espero qualquer flor
esqueço que espero
qualquer flor me surpreenderá.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Véspero de São Nicolas

Não pedi, ainda ganhei
Uma risada para esquecer de mim
tropeçando nos pés



niet gewenst toch gekregen
een lach om mezelf te vergeten
struikelend over mijn voeten

e eu jamais conseguirei disfarçar o fogo, ou o pecado, ou a mácula. e por mais que tenha tingido todas as minhas roupas de branco, e por mais que ande de cabelos presos num coque e não mais pinte os olhos nem colora de vermelho a boca, por mais que não me perfume nem me enfeite eu jamais, jamais conseguirei disfarçar a mulher que se ofereceu sem reservas nem pudor, a mulher que riu e debochou das regras, a mulher que dançou nua molhando os pés no mar, a mulher que nunca teve medo do outro. por mais que eu fale baixo e não levante os olhos, por mais que eu me recuse a aceitar convites, ainda assim eles saberão quem eu fui e onde estive, e do que sou capaz, e a virtuose que sou na arte de matar e morrer, e saberão disso instintivamente, como se farejassem, como se fossem lobos, e pelo instinto eles terão certeza e exigirão que eu ceda, que eu me dispa, que eu caminhe exposta e cante as canções antigas que falam de fogos e tempestades, exigirão que eu dance sobre o vidro quebrado da minha imagem/tentativa de virgem e eles, os que me farejaram, que são como lobos, eles untarão as mãos e as presas com o sangue e seus olhos brilharão ferozes, famintos, e eu serei acuada e me dirão: você tem três dias, nada mais do que três dias, para vir à força ou por bem. e eu me recusarei, e a partir deste momento atravessar a rua me custará a coragem de seis Vietnãs.

Amor

Se pudesse recuperar um presente da juventude
Eu pediria a fragilidade do coração
Que não aprendeu a calar,
Mas chora livremente com a quebra dos sonhos.

Agora me acostumei a me acostumar também;
Gradualmente me retiro para dentro de mim.
Ah, mesmo pra quem me deveria conhecer melhor,
Eu talvez pareça sem amor e duro.

Porém estou cheio de ternuras escondidas,
Amor machucado, que nunca achou uma saída,
Uma compaixão infinita com quem sofreu,
Emoção, que a vida difícil violou.

Só quando estou sentado
Em escuro solidão e ruido de lampada,
E esqueci tudo que me apovorou,
Começa um sopro baixo no meu coração.

Irrompem desejos nunca vencidos,
Um rio de amor sai de mim,
Que abraça todas as pessoas,
Agora que não se sente barrado mais

É assim que achei meu coração jovem
E estou quente de um fogo interno
Tudo o que o mundo guarda em si
Eu trago para os amados.

Assim me parece, vendo tantas perdas,
Tantas asas, desdobradas para nenhum vôo,
Que só morrendo
Consigo mostrar o quanto que os amo.

Um piscar de olho - o encanto quebrou
Misturo a minha existência à deles
Não lhes falei nada de amor,
Não devem nem perceber.


Liefde

Kon ik één gaaf der jeugd terug verkrijgen
Ik vroeg de makkelijke ontroerbaarheid
Van 't hart, dat nog niet heeft geleerd te zwijgen,
Maar vrijlijk bij den breuk der dromen schreit

Nu ben ook ik gewend mij te gewennen;
Ik trek mij allengs in mijzelf terug.
En ach, zelfs die mij beter moesten kennen,
Ik schijn hun wellicht liefdeloos en stug

Toch ben ik vol verholen tederheden,
Gekneusde liefde, die geen uitweg vond,
Een oneindig medelijden met wie leden,
Bewogenheid, die 't zware leven schond.

Alleen wanneer ik ben nedergezeten
In avondeenzaamheid en lampgesuis,
en al wat mij benauwde heb vergeten,
Begint er in mijn hart een zacht geruis.

Dan wellen in mij nooit-verwonnen drangen,
Dan gaat een stroom van liefde van mij uit,
Die alle mensen in zich houdt omvangen,
Nu zij zich eindlijk niet meer voelt gestuit.

Dan heb ik 't hart van mijn jeugd gevonden,
En ben ik warm van innerlijken gloed,
Al wat de wereld in zich houdt gebonden,
Dat voer ik de beminden tegemoet.

Dan schijnt het mij, bij het zien van zóveel derven,
Van zóveel vleugels, tot geen vlucht ontvouwd
Dat ik alleen maar door voor hen te sterven
Hun tonen kan hoeveel ik van hen houd.

Een oogwenk - de bekoring is gebroken
Ik meng het mijne weer met hun bestaan.
Ik heb hen van liefde niet gesproken,
En dit moet alles langs hen henengegaan.


(J.C. Bloem - tradução Han-Wen e Juliana)

Ruído de trombone

Menino de olhos pequenos
tão pequenos
mas cabe tanto céu.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Interessante


Deu vontade.

Abraços abertos!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009



Ainda há tanto o que emocionar
Tudo tão repleto
De simetrias

Lindas

Essas rimas
Da vida

O colega de trabalho
Que senta ao lado
E nunca esteve tão distante

O vendedor de mapas na esquina
O mundo nas mãos

E nenhum horizonte


O homem que corre
No parque
Do que ele foge?

Da morte

Um motorista de plantão
Esperando o próximo passageiro
Com pressa

Mesmo sabendo que todos os sinais
Estão fechados

Um mendigo ao lado

Há mais alegria
Na roupas sujas
Do que na barriga vazia

Mas não é a fome que come a alegria
Lá dentro é sério

Seu olhar atravessa paredes
Porque já esteve em todos os lugares

Foi todos os homens

Sabe que não há verdade
Nem saída

Por isso observa a vida
Sujo e descalço
Já deu o último passo

Sem ter para onde ir
Chegou

Há tanto o que se emocionar
Com a menina que nasceu ontem

Com suas roupas rosas
Bordadas de doçura

Tomara que não sofra
Além da conta

Quando um homem
Lhe ferir o peito

Com um beijo

Os homens são sempre avessos
Quanta emoção em seu choro recém nascido

De quem ainda não entende nada
Antevendo saber

Que isso pouco mudará
O amor há de compensar

Há tanto pra se emocionar

A riqueza do homem
Que desfaz seu significado
Quando fica sozinho

Em sua nudez de sentido

Tanto há se emocionar
Com a moça

Sonhando que sua beleza
Seja o bastante

Se olha no espelho
Como quem reza a uma santa

As rugas ensinarão
Que não existem milagres

(Não para os covardes)

Ainda há tanto o que emocionar
Que não é hora de parar

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O homem gentil

O homem gentil lava os cabelos da menina deitada
lava os cabelos como se fossem
longos
como se os contasse
e cortasse
e os lavasse no sangue
da menina deitada
na água corrente
na pedra
do rio
dos olhos
na chuva
que a pele enxuga.

O homem gentil sempre soube que um dia teria de cuidar do corpo
da menina deitada
a menina sempre esteve deitada
a menina não sabe comer
a menina não sabe andar
não há flores no quarto
nem janelas abertas
nenhuma cadeira
quase nada
é um quarto quase
quase

vazio

só há um homem gentil
e um cão que espera
espera
para lamber os panos com o sangue do dia
o sangue escuro
das feridas
do corpo
da menina deitada.

O homem gentil não sabe por que está chorando
ele não sabe por que a menina deitada está chorando
ele não sabe por que os vizinhos não acordam
não sabe por que não a abraça
e os dois não param de chorar
o homem gentil apenas lava
lava
lava
os cabelos da menina deitada
e canta
para respirar.

Presente

Gosto de andar com os olhos mareados
o sol entrado
o sal nos olhos
o céu
devolvendo o mar.

Gosto de andar com os olhos mareados
olhos
de afundar navio
o céu
muita gente se afogará
e hoje

chove

eu te ofereço um peixe de alto mar.

Naturezas-mortas

As fotos. Algo, de tal maneira perdido, que não se pode nomear. Os rostos extraordinariamente bonitos me sorrindo em fuga. Triste não é o que se acaba, mas o que não se sabe, talvez, jamais tenha sido.

Os rostos. Algo que não se pôde amar e se considera com indiferença. O foco ressentido do meu olhar, sem espelho nem luz, sem reflexo. O vazio por trás das máscaras, os velhos fantasmas engordurando a lente com a ponta dos dedos. O que não se pôde dar.

As rugas plantadas sob a pele. Muitas serão as lágrimas que as farão germinar. Vão cobrir os corpos para preservar as fotos e os sentimentos nobres que sequer nos lembramos ter vivido. Que não se sabe, talvez, jamais se tenha sentido. As rugas, as lágrimas e o que não sentimos vão encobrir quem fomos como musgo verde e bolor.

A decadência num intrincado balé vai nos fazendo esquecer, um a um, os quadros da nossa galeria preferida. Aquela em que nos deixamos ficar horas a fio, perdidos em considerações.

Mas ainda vão revirar nossas fotos, então, para descobrir a glória dos nossos dias de juventude, quando estivermos torcidos pelo ossos; vão dizer de quem provavelmente fomos e suspirar, e nesse dia estaremos mortos, mortos desse olhar que nos prefere pelo que não somos mais, pelo que não se sabe, talvez, jamais tenhamos sido.

domingo, 29 de novembro de 2009

De Volta a um Passado Fora de Mim

Simone Cristine Araújo Lopes
29 de novembro de 2009, domingo.

Foi uma mulher moderna,
De flor rubra, flamenca,
No seu cabelo preto
Que me levou a lugares
Muito antes de mim.

Trouxe para dentro
Um passado fora de mim.
E na mala da memória,
Veio a saudade, clandestina,
Das coisas que jamais vivi.

Haicai da Brina

Simone Cristine Araújo Lopes
29 de novembro de 2009, domingo.

Imponderável,
Neblina não é de se ver,
É de estar dentro.

Haicai de Festa Desmarcada

Simone Cristine Araújo Lopes
29 de novembro de 2009, domingo.

Aniversário:
Compareceu a chuva
Em pingos de anos.
pássaros,

envio-lhes link com reportagem que apresenta uma nova modalidade de publicação: vc envia o texto, escolhe a capa, diz quanto quer ganhar por livro, a editora diz quanto cobrará por cada um e os interessados compram pela internet, com envio pelo correio. ah, não há lote mínimo! a modernidade e suas maravilhas... voemos!

Versinhos de amigo

Se Brina combina
com certas coisas
eu diria combina
com a mulher
menina sorriso
lindo que me cativa
e combina (seja dito)
com o impreciso
claro da neblina
no que tem de fina
sintonia com o impoderável
do destino.


[feliz aniversário, minha amiga.]

De um ranzinza inconfessável

fazer o inútil sabendo
que ele é inútil, e bem sabendo

que é inútil e que seu sentido

não será sequer pressentido

[J.C.M.N., O artista inconfessável]

Fazer um livro não é útil
comprá-lo é um absurdo
mas entre o inútil
do livro feito e o absurdo
do dinheiro vai aquilo
de que se diz sentido
ou quase: pressentido
como infinito a caminho
entre as páginas bem escritas
das Abreviaturas do Invisível.



[e de que se reclamei "vinte"
é porque sou um sovina
se bem que felicíssimo
leitor e amigo: eassis.]

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A flor na pele

Laura,

Estava botando o blog em dia...
Que beleza o seu texto sobre a tatuagem!
Que imagens, que sensibilidade.
É pra imprimir e guardar.
Abs

Paulo

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Kigo Belorizontino?

Simone Cristine Araújo Lopes
26 de novembro de 2009, quinta-feira.

[Espelho do Haicai da Ju e do Eduardo, o autodemolidor]

Gentes usam jornal,
Fogem da chuva forte:
Vida tropical.

Haicai que não é haicai (minha especialidade!)

[espelho dos haicais da Simone e do Eassis, com o coração :)]

primavera, um fio fino
de flor, meu coração
na ponta
e se ele cair?
longe demais do chão.

Haicai numa Tentativa Kigo

Simone Cristine Araújo Lopes
26 de novembro de 2009, quinta-feira.

[Continuando o diálogo, interrompido abruptamente pelo/com o Eduardo]


Entre vizinhas
Flores de cerejeira:
Eis a primavera.

Souvenir

Ze wilde wat van mij houden
mijn onderlip, een hap
uit mijn schouder
de punt van mijn neus

Ik mocht ruilen;
haar rechterborst, of
de geur van de huid
naast haar oor

Uiteindelijk kozen
we stukken van ons hart
om de herinnering
in te bewaren.




Ela quis guardar algo de mim
o lábio inferior, um pedaço
mordido do ombro
a ponta do nariz

Me deixou trocar;
o seio direito, ou
o cheiro da pele
perto da orelha.

No fim, escolhemos
pedaços do nosso coração
para guardar
a saudade

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

de quedas foi ao chão

um coração é pronto
para nunca


um coração é pronto para virar a esquina e aquele amor, e aquela saudade, e aquela surpresa guardada há tantos tantos anos na caixa ou na ponta da língua, o nome que alguém esqueceu, o olhar o recorte, a memória este é o cheiro da pele de fulano, esta é a voz de fulano quando sorri, este é o sorriso de canto de boca de fulano que me comove até a raiz dos cabelos. um coração é pronto para as palavras colocadas cuidadosamente sobre a mesa, para as perguntas que a gente cala por puro medo, um coração é pronto para o peito explodindo de vontade, de desejo, de calor, pronto o coração que joga, que blefa, que aposta o que não tem, que ri alto e incomoda, e conta histórias, bravatas, um coração que se recolhe, que acha bom cair a máscara, que sente alívio e respira e conta: foi aquele, foi aquele
a quem eu devia ter dado a mão.

um coração é pronto
para nunca admitir
a ínfima sequer possibilidade
de retorno
ou redenção.

Palavras Cruzadas #1

O debate lançado pelo Paulo e pela Laura, sobre crítica literária, linguagem poética, técnica e sentimento, etc, me motivou a criar esse “Palavras Cruzadas”, nosso espaço para entrevistas com e entre os Pássaros.

Minha primeira vítima (ops, meu primeiro entrevistado) é o polemista Paulo Merçon. Carioca, poeta, juiz do trabalho, amante da fotografia e pássaro achado, o Paulo é cortado por um rio austero e o silêncio apenas. Há minério enterrado no coração de Paulo. E há sempre, por todo lado, página por página, o mar todo em volta.

Como Guimarães Rosa, Paulo odeia dar entrevistas. Seguem abaixo as respostas que consegui arrancar desse poeta:


Juliana: Paulo, como é que nasce um poema em você? O poema te vem por uma palavra, uma idéia, um fato, uma imagem? O ato de escrever é deliberado ou vem de repente?

Paulo: No meu caso, o ato de escrever é sempre deliberado. A partir daí, dessa vontade de escrever, e da transpiração, surgirão momentos em que a inspiração fugirá ao meu controle e brotará de repente, às vezes nas ocasiões mais inusitadas, já aconteceu várias vezes na hora de dormir, no meio de uma refeição, dirigindo ou durante o banho. Geralmente meus poemas nascem de uma idéia, às vezes de uma imagem solta.

Juliana: Às vezes te dói escrever?

Paulo: Sim. Geralmente qdo escrevo sobre mim mesmo.

Juliana: Paulo, qual é o seu poema predileto do livro “Abreviaturas do invisível”?

Paulo: Acho que o meu predileto é ‘Jazzístico’. Gosto de ‘Elegância das cinzas’ tb.

Juliana: Como nasceu o título do seu livro? E por que eu sempre leio “infinito” no lugar de “invisível”?

Paulo: Eu tinha um poema antigo, que não foi para o livro, com um verso que dizia abreviaturas do futuro. Eu gostava daquele verso. Certo dia eu estava na praia de Itacoatiara, em Niterói. Era dia de semana, a praia estava vazia e maravilhosa. Eu estava olhando o mar qdo decidi que aquele seria o título do meu livro (que estava quase pronto). Não abreviaturas do futuro, mas do invisível, que compunha com a idéia e versos de vários poemas. O invisível é infinito, e o infinito é invisível. Ambos só têm medida se abreviados. Quem sabe se vc estivesse olhando o mar comigo naquela manhã (risos).

Juliana: Como método de escrita, você acredita na inspiração, na transpiração ou na disciplina?

Paulo: Acredito na disciplina e na transpiração para alcançar a inspiração – e a partir daí, ela, inspiração, trabalha por si própria. Estou convicto de que não existe inspiração avulsa, não precedida de disciplina. Veja o meu caso: há alguns meses, por conta do lançamento do meu livro, não páro para escrever, e a inspiração não vem. Minha fase mais inspirada (de dezembro/2007 a maio/2008, qdo escrevi o ‘Abreviaturas do invisível’ quase inteiro) foi precedida de meses de leitura e experimentos, e detonada por alguns dias de dedicação total ao ato de escrever.

Juliana: Paulo, os clássicos só eram os clássicos porque não tinham os clássicos para atrapalhar? (Essa frase é do Quintana)

Paulo: Sem dúvida, o Quintana foi muito feliz com essa frase de efeito. Eu diria que nas artes e no futebol (risos) as primeiras grandes referências dificultam a vida de quem vem depois. Ninguém irá superar Pelé, ainda que venha a jogar mais do que ele.

Juliana: O que você gostaria de ter escrito e não escreveu? Pode ser um verso, um poema, um parágrafo ou um livro inteiro.

Paulo: Um romance. Meu sonho é escrever um romance um dia. Mas nunca tentei, e acho que não vou tentar, pra não deixar de ser sonho (risos).

Juliana: Qual escritora você amaria perdidamente? Por quê? Pode justificar com um verso ou uma frase dela.

Paulo: Tenho verdadeiro fascínio pela Emily Dickinson. Não apenas pela poeta, mas pela pessoa, a personalidade esquisóide, misantropa e ao mesmo tempo genial, que morreu com sua obra inteira trancada numa gaveta. Se fosse escolher um verso: Things are not what they are.

Juliana: Qual a palavra mais bonita para você? Defina-a.

Paulo: Não sei se é a mais bonita, mas gosto de desatar. É uma palavra bem poética, um verbo substantivo, com n possibilidades de significado. Se eu fosse restringi-la a uma definição, seria abrir. Gosto qdo uma coisa desata em outra.

Juliana: Existe poesia na prosa? Existe poema que é um dedo de prosa?

Paulo: O ‘Grande Sertão’ do Guimarães Rosa tem poesia em cada página. E existem poemas cuja linguagem é prosaica. Alguns dos grandes poemas do Drummond foram escritos nessa linguagem. Prosa pra mim é narrar, descrever. Poesia, criar realidades novas, sentimentos de uma forma original.

Juliana: Paulo, quer dizer que o amor é exumar a ossada?

Paulo: Às vezes é preciso exumar várias vezes. (risos) Outras vezes a sepultura se fecha.

Juliana: Recentemente, você escreveu que “poesia (ou literatura) não é só sentimento ou sensibilidade. Como qualquer arte, é ofício, é técnica também.”
Como eu acho seus poemas bastante fotográficos, essa sua frase me lembrou uma entrevista que o Truman Capote deu à Paris Review, em que ele disse que “(...) escrever tem suas regras de perspectiva, de luz e sombra, tal como a pintura ou a música. Se você nasceu sabendo, ok. Se não, aprenda. Depois, modifique as normas para que se adaptem a você”.
Nessa entrevista, Capote também afirma que precisa exaurir em si mesmo a emoção antes de projetá-la e começar a escrever. O que você acha? A emoção, quando projetada no poema, vira sentimento imaginado? E o acaso, o acaso pode invadir e despedaçar a moldura do poema?

Paulo: Sim, acho isso. A emoção se projeta no poema sob a forma de sentimento imaginado – ou fingido. O poeta é um fingidor (Pessoa) não por fingir o que não sente, mas porque finge sentir o que de fato sente. Arte é isso. Transcrever literalmente para um poema a emoção verdadeira não é, a meu ver, poesia. Pode ser confissão, declaração de amor. O acaso tem sempre seu lugar, e pode sim despedaçar a moldura do poema. Mas pra isso ocorrer com qualidade artística, é preciso que o poeta antes se dedique ao ofício. Nas artes, para transgredir as regras, é preciso dominá-las primeiro – foi o que disse o Truman Capote. Picasso foi um exímio retratista antes de pintar o cubismo e telas abstratas.

Juliana: Paulo, confesse para nós: você já quis ferir seu leitor com um poema?

Paulo: Acho que vivo querendo ferir.Tenho consciência da densidade e profundidade de alguns dos meus poemas, e sei que isso fere. Acho que toda arte fere.

Juliana: Quais escritores te influenciaram mais? Quais mais te machucaram? De quais você gosta, mas tem vergonha de dizer?

Paulo: Os que mais me influenciaram sem dúvida foram Jorge de Lima e Federico García Lorca, com quem aprendi a falar (escrever) uma nova linguagem, a linguagem poética. Em algum momento Drummond me influenciou muito. Os que mais me machucaram foram Guimarães Rosa e Saramago. Vergonha, se tenho, é de não gostar de Kafka e Borges.

Juliana: Paulo, você já me disse uma vez que a poesia, em especial o haicai, é mais contundente por causa da forma breve, do efêmero. Precisamos perder as palavras para possuí-las?

Paulo: Às vezes é preciso perdê-las para possuí-las sim. É o que ocorre qdo usamos a genuína linguagem poética. As palavras ganham vida própria, e vc já não pode se apropriar de seu significado. Mas a força do haicai pra mim está em sua alta voltagem, na concentração da sua força. O impacto de um golpe é tanto mais forte qto menor a área.

Juliana: A ausência existe?

Paulo: Essa não vale. Eu perguntei primeiro! (risos)

Juliana: Paulo, o mar invade quase todos os seus poemas: “o mar/ menos destro/ desbota nas ondas”; “ali escavada/ a memória de um mar”; “sua morte entre/ as espumas flutua”; “a lágrima/ lenta e lúcida que escorria”; “tudo o que é mar/ e não se exprime em espuma”.
O mar também é uma das minhas imagens prediletas. Por meio do mar, num verso, cabe o homem inteiro?

Paulo: Se não cabe, às vezes passa a sensação de que está cabendo.

Juliana: Paulo, só para terminar com um começo: escreva para nós o primeiro verso do poema que você está escrevendo agora.

Paulo: Juliana, você vai achar que é charme, mas já fazem mais de três meses que não escrevo uma linha de verso. O último poema que escrevi ( e acabei não concluindo) antes de me dedicar à publicação do meu livro (isso foi por volta de julho deste ano) começava com estes versos: História, perpétuo poema/ que o primeiro verso/ se escreve agora. Até que gostei da entrevista.

Minha Primeira Tentativa de Haicai

Simone Cristine Araújo Lopes
25 de novembro de 2009, quarta-feira.

Entre palavras
o vácuo anseia-se
em vento sem dor.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

oráculo pronto


hasteado eterno o desmazêlo: as flores me caem das mãos
e eu nem choro.

O coração - esses pormenores todos


Pessoas queridas,
Vou comemorar meu aniversário com um piquenique/ sarau, no Parque das Mangabeiras, neste sábado, 28/11, de 15h às 18h.

Vocês estão todos convidados! Levem quem quiserem.

Farei minha tradicional torta de amendoim, bolo de mel e outras coisinhas. :)

No mesmo dia, comemoraremos os aniversários do Daniel e do Pedro. Estaremos por lá, no teatro de arena, fazendo terrorismos poéticos, barulhinhos bons e coisas afins.
:)

Beijos,

Ju

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Manifesto em amarelo fosforecente à linguagem poética

Pessoal,

Recebi um e-mail em PVT, e achei oportuno tocar em uns pontos interessantes.

Todos sabemos: depois de publicada, a obra já não pertence ao autor, mas a quem estiver de posse dela, e resolver interpretá-la.
Mais ainda na poesia, pois o poema contemporâneo, como uma tela abstrata, não tem lógica.
Nem por issodeve ser hermético, 'fechado' (e talvez aí possa se distinguir das artes plásticas).
Ao contrário, o poema atual deve ser 'aberto'. O leitor, como coautor, o sente e o interpreta como bem entender, de acordo com seu momento, humor, fase de vida.

Foi o Walmir Silva (do 'terças poéticas') quem me passou hoje as referências do Márcio Almeida, segundo ele "um dos maiores pensadores de arte que temos no brasil", com minúscula mesmo.
Como eu disse, qq um pode opinar sobre uma obra literária, uma pintura, uma música.
Mas é claro que algumas opiniões serão mais respeitadas que outras, e servirão de referência.


É claro que fiquei feliz com os elogios do Márcio Almeida.
Mas postei a msg. muito mais pra fazer um grifo amarelo-fosforecente na linguagem poética que ele pinçou no meu livro.
Uma linguagem que há muito vem sendo negligenciada por nossos poetas, que ora recorrem à prosa em verso, ora à colagem sem nexo de palavras difíceis.

Fica o meu manifesto à genuína LINGUAGEM POÉTICA!
À linguagem substantiva, que cria realidades.
À palavra-coisa, que renova a língua.

Abs a todos

Paulo

Márcio Almeida

Acabei de fuçar no google.
Abs


MÁRCIO ALMEIDA


Nasceu em Oliveira. É formado em Letras, com curso de Especialização em Ciências da Religião, mestre em Literatura. Professor universitário. Membro efetivo da Comissão Mineira de Folclore. Verbetista da Enciclopédia Barsa. Criador, com Hugo Pontes, do Grupo Vix, em 1963. Criador do Movimento de Resgate do Autor Inédito e Anônimo. Autor de 39 publicações. Detentor de dezenas de prêmios nacionais de Literatura, entre eles: Prêmio Emílio Moura, Cidade de Belo Horizonte, Fundepar, Cruzília, Nova Friburgo. Jornalista profissional, ex-assessor de imprensa do Palácio das Artes, IEPHA, Secretarias de Estado da Habitação, Utramig, Emater. Crítico literário desde a Década de 70; colaborador do Estado de Minas, Suplemento Literário do Minas Gerais. Atualmente, publica com regularidade em várias revistas eletrônicas de Literatura, como poeta e crítico, entre elas, Cronópios, Germina, Tanto, Recantodasletras, La Trastienda. É supervisor Cultura e assessor de Comunicação da Cidade de Carmópolis de Minas.

Autor dos livros: Lavrário, Assassigno, Previsão de Haveres na Terra do Puka, Orwelhas Negras, Oficina de Nomes, Mel Perverso, Paixão, Antologia Poética II (esta junto com Antônio Barreto, Geraldo Reis, Paschoal Motta e Ronald Claver); Doce Veneno, Lápis Impuro; infanto-juvenis: WHYK, É Isso aí, Bicho! O Céu é um Zoológico, Minha Escola é Sopa, Hoje é Dia de Rock, entre outros. É traduzido na Argentina, México, Estados Unidos, Alemanha, Itália, Uruguai, entre outros países.

Comentários

Pássaros,

Estou postando esses comentários do Márcio Almeida ao meu livro não pelos elogios, pois sabemos que isso é subjetivo.
Mas pq, na minha modesta e suspeita opinião, o Márcio foi até agora quem melhor enxergou o meu livro,
Acho que ele foi feliz inclusive ao pinçar os fragmentos de 'linguagem poética' (aquela que cria novas realidades, ao invés de narrá-las ou descrevê-las).
Abs

Paulo
(o Márcio é poeta e crítico. Não o conheço pessoalmente, mas é amigo do Edgard, que prefaciou meu livro)

----- Original Message -----
From: edgard.reis@uol.com.br
To: p.mercon@globo.com
Sent: Thursday, November 19, 2009 7:25 PM
Subject: comentário

Paulo Merçon,Recebi e-mail do Márcio Almeida, agradecendo o envio de seu livro.

(...)

Meu caro Edgard,muito grato pela indicação para recebimento do livro Abreviaturas do invisível, de Paulo Merçon
(...)Há um bom tempo não me sentia de tal modo surpreendido como o fui por este Abreviaturas do invisível. De pronto, me deparei com um título não apenas imprevisível, mas já obrigando a acuidade máxima na leitura do seu teor eivado de estranhamento, liricidade, surrealismo, garimpos fractais. Então deduzi que o invisível estava nos versos da contra capa: "um intervalo fugaz - entre a existência e o nada". E, a partir daí, o livro tornou-se arrebatador. Pus-me, na sequência, a pensar sobre a palavra "abreviatura", dessossando-a em nível semântico-linguístico: ela ABRE VIATURAS, cria VIAS de aceso para esculpir signos raros. O que ela condensa poeticamente (BREVE), se expande no imaginário. Depois veio a surpresa de o poeta escrever com palavras, compor versos-bluescomo quem se põe a lapidar gelo sob "o brilho do saxofone" e a "insônia das rosas". E vieram as metáforas profundas como o não-exis tir a aliciar a comoção: "o dia amanheceu - levemente envelhecido o céu já disfarça suas rugas"; "a arquitetura de cada silêncio"; "os músculos sempre jovens da água"; "a borboleta laranja eram os lábios - do meio-dia dizendo à relva"; "era a muda escultura - de todo som, e do que restará um dia - em fósseis de verve ou angústia"; "o segredo ainda úmido se anuncia";"que em cada instante, só o efêmero perdura"; "no quarto de hóspedes - a estante é um rosto - cheio de bocas onde - os livros são dentes"; "orquídeas em desvario"; "todo o litoral abreviado num píer". Além de dois momentos particularmente emblemáticos: o verso "na paisagem do nada", que condensa o título do livro; e o verso-indagação "a ausência existe?", síntese do livro.Livro denso, de quem tem convívio com a poesia e profundidades, de quem esculpe espumas, de quem, com a dignidade das tradições mais genuínas constrói o nada. Cumprimente Merçon com meu abraço. Que este ndo a você, fraternalmente. Seu amigoMárcio Almeida

domingo, 22 de novembro de 2009

Vide Cor Meum - De La Vita Nuova

[Conversando sobre La Vita Nuova, postado pela Maria Helena]

Há certas músicas que me fazem fechar os olhos.
Deixando de ver, por minutos, ouço melhor, sinto com o corpo e deixo-me envolver pelas notas, acordes, silêncio, harmonia, da música.
Quando assisti "Hannibal", deixei passar na tela aquelas letras no final do filme, não pelas palavras, mas pela música de fundo. Era essa: Vide Cor Meum, em italiano arcaico.
A beleza ficou impregnando minha alma e, dias depois, irresistível, procurei saber de que ópera seria. Suspeitei dos clássicos. Descobri, para minha surpresa, que, em verdade, a música foi composta por Patrick Cassidy, compositor contemporâneo irlandês, que adaptou um poema de Dante Alighieri, La Vita Nuova - este, sim, um clássico - especialmente para o filme.
A surpresa não pára aí.
Dante compôs os versos para uma mulher - Beatrice - que conheceu ainda criança, e, claro, acabou casada com outro e, ele, com outra. Ambos se viram apenas 2 vezes na vida: quando criança e quando casados. Ela morreu jovem e, dias depois da morte dela, ele fez os versos que transcrevo abaixo com a tradução por minha responsabilidade.
Veja o lirismo dos versos que aponta o sentimento de amor como o de um coração que arde em chamas, mas que exige da pessoa que ama uma humildade imensa, de quem come o próprio coração, renuncia até o limite e, só assim, encontra a paz.

Vide Cor Meum (Veja o meu Coração)
Dante Alighieri

Chorus: E pensando di lei (Coro: E pensando nela)
Mi sopragiunse uno soave sonno (Me sobrevém um suave sono)

Ego dominus tuus (Eu sou teu Senhor)
Vide cor tuum (Veja teu coração)

E d'esto core ardendo (E este coração em chamas)
Cor tuum (Teu coração)

(Chorus: Lei paventosa) (Coro: Ela treme)
Umilmente pascea. (Humildemente come)

Appreso gir lo ne vedea piangendo. (E então se vê chorando)
La letizia si convertia (A alegria se converte)
In amarissimo pianto (Em amaríssimo pranto)

Io sono in pace (Eu estou em paz)
Cor meum (Meu coração)

Io sono in pace (Eu estou em paz)
Vide cor meum (Veja o meu coração)

Disponível o clipe com a música em: http://www.youtube.com/watch?v=Z3lHsxrdpTg

história contada das marcas #1




e me pergunto assim quem de livre e espontânea vontade e coração permitiria ter o corpo escrito pela morte, pelas mãos da morte, pela morte guardada nas mãos no corpo no sangue, a morte sabida ali, o próprio anjo disfarçado, o triste e a sentença quem, abrindo um caderno, um livro de figuras, quem escolheria uma flor - uma tulipa negra - estenderia a mão levantaria a blusa ou o vestido e mostrasse aqui, o primeiro rabisco traço marca, aqui, sobre estas três costelas aqui, a lápis e sangue o sofá de alguém, era de tarde e fazia tanto calor e aqui, sobre este corpo que ainda não sabe o que virá, sobre este corpo que ignora o que vai lhe caber na vida, o seu quinhão de tropeços e agulhas, este corpo novo que não sabe que passará o resto do tempo para sempre se reinventando e rindo e tirando sangue de si e dos outros, aqui, e numa tarde quente no sofá de alguém eu escolhi uma flor e pedi que a desenhassem sobre o meu corpo novo, ainda não reinventado, um desenho de flor em forma de cruz como se feito a lápis arrancando sangue e as gotas de sangue eram como rubis e o sal era como o sal mesmo e eu não chorei porque não doeu e não quis bandagens nem cuidei direito porque eu queria que aquela flor fosse borrada, eternamente borrada e de contorno falho, que ela fosse imperfeita como eu ali naquele recorte e naquela hora bonita e triste, de comunhão, a morte guardada nas mãos de um anjo me marcando um começo que eu quis, eu era nova pela primeira vez porque escolhia meu caminho torto e brigava por ele, gritando que é assim que eu quero, errado e sujo e meu. meu, só meu. então a minha primeira marca: tenho um homem crucificado no tórax com as mãos atravessadas por pregos, fincadas nas pétalas de uma flor.

e um dia esse homem ficou fraco, e foi ficando transparente e leve, e esse homem não voava mais, e finalmente esse homem, cansado, partiu, e eu, covarde, não fui visitá-lo uma única vez. era um anjo morrendo que me deixava uma flor, essa flor em cruz sobre as costelas que me grita diariamente que quando alguém mais precisava de mim, quando alguém era assim o filho que morria só e exausto, eu, que fico alardeando aos quatro ventos a minha coragem, tive tanto, tanto medo e fui tão fraca que não consegui tomá-lo nos braços, e não fui sequer capaz de estender a mão.




*versão musicada da história contada da minha primeira tatuagem para a Ju, no meio do samba, dos gritos e da culpa cristã.

imagem: detalhe da Pietà